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ENGLISH VERSION BELLOW

 

Rafael Mouzinho é um dos oradores convidados da primeira edição do CCC (Cross-Cultural  Collaboration). Rafael nasceu em 1979 em Maputo, Moçambique, onde vive actualmente. É artista plástico, curador, escritor, professor e responsável do Departamento de Artes Visuais do Instituto Superior de Arte e Cultura, em Maputo.

 

Qual é que acha que é a relevância de uma residência como o CCC nestes tempos em que o contacto com outros criativos é tão diferente e escasso?

A importância do projeto CCC tem muitas dimensões, uma das dimensões tem a ver com o espaço. É esta migração do espaço físico para um espaço digital. Com a pandemia, emergiu esta necessidade de plataformas digitais e apesar de estas já existirem há muito, agora ganharam relevância e propósito e vieram para ficar. E isso traz dificuldades para nós e todos os que enfrentam o dia a dia na nossa área, nas artes e na cultura.

Acho que é uma realidade ainda fracionada daquilo que tenho constatado. Sim, plataformas digitais são importantes mas ainda enfrentamos dificuldades a vários níveis. Embora as pessoas tenham acesso a dispositivos tecnológicos como o computador ou telemóvel, para poder aceder aos conteúdos que lá estão é necessário algumas condições como o Wi-Fi, por exemplo, e em Moçambique isso ainda não é acessível a todos.

Acho que há apenas uma percentagem pequena que tem acesso a Wi-Fi e isso permite-lhes ter acesso a informação e àquilo que está a acontecer no mundo. Contudo, não é só sobre ter acesso à internet, porque também é preciso tempo e espaço para podermos compreender e organizarmo-nos para nos podermos envolver em oportunidades. Eu acho que o CCC é um desafio e acho que como ponto de partida é importante porque está a possibilitar estas conversas e interações mas também vai abrir zonas de penumbra para percebermos estas dificuldades. 

 

Que diferenças artísticas considera mais marcantes entre Portugal e Moçambique e como acha que se podem mostrar nesta residência?

Primeiro, falando da experiência de contato com a wendy.network desde o lançamento, as condições que o projeto recomenda, que é um portfólio, uma proposta, um computador, etc. Toda esta questão logística é um ponto de distinção entre os dois sítios envolvidos, Moçambique e Portugal. Mas não só a questão logística, mas a questão também de organização. Isso também vai ter efeitos no próprio processo de trabalho ou, não só no processo, mas também na demonstração do estágio do próprio artista. Acho que o processo que agora já se está a experienciar vai demonstrar também este lado. Com estas questões das diferenças, estava a dizer que o próprio processo em si é muito diferente e aliado à própria realidade em que nós nos encontramos, ainda mais é a discrepância.

Os artistas, na minha experiência, estão dispersos em várias realidades. Não é uma definição concreta mas estas realidades acabam por ser bem definidas e distintas. E o que eu espero é que haja artistas que não se prendam nestas definições mas as transcendam, nesta lógica de interação e aproximação com outrem através do ecrã — uma realidade ainda bastante frágil e não bem inserida, pelos menos aqui em Moçambique. Fico, contudo, bastante satisfeito que haja quem se esteja a conseguir inserir neste meio das novas tecnologias e consiga tirar partido delas.

Na sua prática artística trabalha muitas vezes em colaboração com outros artistas. De que forma considera importante conhecer outros artistas e o seu trabalho para o seu próprio desenvolvimento enquanto artista?

É preciso contextualizar um pouco esta pergunta, porque tenho de explicar o contexto histórico e cultural em que estou inserido. O meu primeiro contacto com as artes foi quando estudei na Escola Nacional de Artes Visuais em 1999, onde encontrei um ambiente onde me senti confortável e do qual queria continuar a participar. De seguida, em 2002, houve uma mudança a nível internacional — a configuração geopolítica do mundo mudou. Foi a altura em que a guerra civil terminou, a guerra dos 16 anos, e surgiu uma nova configuração geopolítica, o mundo em dois blocos. Várias iniciativas começaram a emergir em África, Moçambique, e uma necessidade de encontrar outras formas de dialogar e interagir usando as artes plásticas e a própria cultura. 

Houve uma altura em que os professores tiveram de sair de Moçambique porque não havia  uma escola de formação superior em artes cá e as pessoas tinham de emigrar para a África do sul, Portugal, Brasil, França, etc. Nos anos 2000, estes artistas começaram a regressar e acabaram por criar um grupo colaborativo. Naquela altura, para ter acções era preciso ter um registo e o recomendado era que fossem 12 indivíduos para poderem fazer uma associação. Então nós os 12, alguns professores e colegas meus, acabámos por criar o movimento de arte contemporânea. E com o primeiro manifesto, à semelhança do que estava a acontecer em África, queríamos rever o conceito de história de arte, rever a própria arte, a própria forma e postura de estar na arte; o que é a Arte e a Arte Africana. E todos esses conceitos estavam instalados num desequilíbrio em que uma arte é a arte e a outra arte é a arte Africana. A partir daí reparamos que o próprio grupo se estava a dividir em grupos mais pequenos, então criamos grupos mais informais. Um deles chamava-se Sociedade Paralela e era dinamizado por mim, Jorge Dias, Gemuce, David Mbonzo, entre outros, onde fazíamos projetos artísticos e teorizávamos sobre estes assuntos. Havia outros grupos como a Trinity Section, que mudou o paradigma não só na arte sul africana mas a nível global.

Então a minha experiência sempre foi desta dinâmica colaborativa, inicialmente espontânea e que posteriormente tomava forma. 

Recentemente tem feito vários trabalhos de curadoria. Considera estes momentos de colaboração com os artistas ou considera-os momentos de exploração da sua própria  linguagem pessoal?

Sim, é uma pergunta interessante. Na verdade é o meu trabalho que se assume como curadoria, mas eu sempre resisti a este cargo de curador, vejo-me mais como um dos intervenientes no processo de produção. O meu papel é um papel sempre de colaboração, no entanto os artistas que trabalham comigo elas próprias assumem que têm que fazer esse papel. Não sou eu que vou e digo “eu quero trabalhar contigo, acho que o teu trabalho é interessante”. É algo que acontece de forma bastante natural e que demora. Eu gosto que o meu trabalho seja demorado, sem uma perspectiva definida que dentro de dois/três meses possamos fazer algo. No entanto, é um trabalho fluído, espontâneo, e progressivamente vai-se definindo. 

 

O seu trabalho concilia as artes plásticas, a curadoria e a escrita. Considera que todas estas áreas afetam a sua prática artística de igual forma ou consegue separá-las nos momentos de criação? 

Sim separam-se. Acho que isto nos leva a questão de autoria. Em 2013, escrevi sobre uma exposição chamada Hora de Ponta, mas não assumi que era o curador, onde duas pessoas tinham mais ou menos a mesma ideia e acabaram por fazer um só projecto. Foi muito interessante discutir estas questões de autoria num trabalho colaborativo.

Agora, respondendo à pergunta dos papéis de curadoria, de artista e escritor, claro que são papéis separados e eu preciso sempre de me situar em cada projecto, porque o meu trabalho tem muitas vezes a ver com o contexto da História da Arte. Portanto tudo tem que fluir e estar conectado, mas também têm de haver momentos distintos e separados. Eu olho sempre para os meus cargos como uma coisa específica e que, às vezes, eu tento explorar sem entrar em conflitos.

 

Tem estado a falar  bastante de fluidez e de como trabalhar com outras pessoas deve ser um processo calmo e sem pressas. Parece-me interessante esta perspectiva porque hoje em dia temos horários tão detalhados e minuciosos. Qual a sua perspetiva nesta questão de fluidez e organização?

Sim, a questão do tempo. Esta questão é que a lógica da divisão do trabalho já está dentro das artes plásticas também, assim como a lógica de especialização. Eu sempre resisti à questão da especialização. Acho que uma das coisas na minha perspetiva é tentar sempre encontrar formas  de superar dificuldades sem ter de me especializar. No entanto, às vezes posso ver uma coisas numa perspectiva curatorial mas que talvez possa realizar esta perspectiva na materialização de um objeto ou objetos. Dependendo do que as ideias proporcionam eu faço uma escultura, uma pintura, uma peça de teatro ou um filme. Depende muito da forma da ideia. Eu acho que a ideia encontra um espaço, encontra uma transação que me deixa satisfeito e confortável com o resultado. 

Lembro-me que em 2006 produzimos um livro colaborativo coordenado pela Catherine Smith chamado One million photos, sixty three days. Neste projecto trabalham pessoas de praticamente todos os cantos do mundo mas não houve uma seleção premeditada de quem faria parte, o grupo formou-se de forma muito natural. Agrada-me imenso esta fluidez de estruturar projectos.

Ficar na nossa zona de conforto é fácil, mas perdemos muito e estas conversas são importantes. Não estamos à procura de soluções mas simplesmente trocar ideias.

 

Segue o trabalho de Rafael Mouzinho:

https://processossite.wordpress.com/artistas-2/rafael-mouzinho/

https://www.buala.org/pt/autor/rafael-mouzinho

https://www.linkedin.com/in/rafael-mouzinho-9204a35b/?originalSubdomain=mz

ENGLISH VERSION

 

Rafael Mouzinho is one of the guest faculty members of the first edition of the Cross-Cultural Collaboration (CCC). Rafael was born in 1979 in Maputo, Mozambique, where he currently lives. He is a visual artist, curator, writer, teacher and head of the Visual Arts Department of the Instituto Superior de Arte e Cultura, in Maputo.

 

In your opinion, what is the relevance of a residency like the CCC in the current times, when contact with other artists is so altered and scarce?

 

The importance of the CCC residency has many dimensions and one of those dimensions has to do with space. It is a migration from the physical space to the digital space. The need for digital platforms emerged during the pandemic, although they had actually existed for a long time, they gained new relevance and purpose and now these platforms are here to stay. This brings unforeseen difficulties for us and everyone who exists in the arts and culture industries.

I think it is still a fractional reality given my experience and what I have seen. Yes, digital platforms are important but we still face difficulties at various levels. Even though people have access to technological devices such as computers or cell phones, to be able to access the actual content online some conditions are necessary like Wi-Fi, and that is not accessible to everyone, here in Mozambique.

I think there is a small percentage of people who have some access to Wi-Fi and that allows them to have information about what is happening in the world. But it’s not just about access, because you also need time and space to be able to understand and organize yourself to get involved in opportunities. I think CCC is a challenge and as a starting point it is important. CCC is sparking conversations and interactions which will bring new outcomes, but it will also open up areas of darkness that reveal these difficulties.

 

What do you think are the most striking artistic differences that will stand out in this contact between two artists from different places (Portugal and Mozambique)  and backgrounds?

 

First of all, speaking about the required information recommended for the project, which is having a portfolio, a proposal, a computer, etc, all these logistical issues are a point of distinction between the two places involved, Mozambique and Portugal. It’s not only the logistical issues but also the factor of organisation and this will also have effects on the work process itself and on the artist’s own stage in their career. So I think the process that is now being experienced will demonstrate this discrepancy. This topic of difference means that the process itself is very different and if you ally that to the reality in which we find ourselves you get something even more varied. 

Artists, in my experience, are dispersed in various realities. It’s not a frozen definition of reality you find, but these spaces are well defined and very rigid. And the hope I have is that there are some artists who don’t get caught up in these spaces. This logic of production using distance in the sense of approximation with the screen is still incipient and not well inserted, at least here in Mozambique. But I’m glad that some people are finding the flexibility to get involved, interact and take advantage of these tools to produce artistic work.

 

You often collaborate with other artists in your personal work, so how do you think meeting other artists and their work helped you develop your own work and how can it therefore help other artists?

 

It is necessary to give some context to answer this question, because I have to explain the historical and social context I am inserted into. My first contact with the arts was when I started studying at the National School of Visual Arts in 1999. There, I found this environment and this need to keep being involved in this area that I embraced. And after that, in 2002, there was a change at an international level, the geopolitical configuration of the world changed. We were at a stage where the civil war was ending, the 16-year war, and the world divided into two blocks. We are at a time when various initiatives were emerging in Mozambique and Africa as a whole, and a need emerged to look for other ways of dialoguing and interacting using the fine arts and culture .

There was a time when teachers had to leave Mozambique because there was no higher arts training school here and people had to emigrate to South Africa, Portugal, Brazil, France, etc. And in the 2000s these artists started returning and they ended up creating a collaborative group. At that time, you had to create an official group and the number of people recommended was 12, to be able to make an association. So the 12 of us, some professors and colleagues of mine, ended up creating the contemporary art movement. And with the first manifesto, similar to the happenings  in Africa, we wanted to review the concept of art history, review art itself, the very structure and composure of being in the art world. What is African art and what is art? From all these concepts came these ideas that one art is art and the other art is African art. From there we saw that our group was already diving into smaller groups, so we created more informal groups. Me, Jorge Dias, Gemuce, David Mbonzo, among others, created a group called Sociedade Paralela, where we did projects and theorised on these subjects. There were other groups such as the Trinity Section, which was a group that changed the paradigm not only in South African art, but around the globe. 

So my experience working in the art field always comes from this collaborative dynamic, spontaneous at first and then taking shape in a more organised manner.

Other than being a fine artist you are also a writer and curator. When you are curating another artist’s work, do you see that work as a moment of collaboration with the other artist, or do you see it more as a moment of exploration of your own artistic practice?

 

That’s an interesting question. In fact, it is my work that is assuming itself as curation work, but I have always resisted the title ‘curator’. I assumed myself as simply one of the interveners in the production process. My role is always a collaborative role, however the artists who work with me assume they themselves have to play that role. I’m not the one who goes and says “I want to work with you, I think your work is interesting”. It just happens in a very natural way, it takes time. I like that my work takes time and it takes this perspective that in two/three months we can do something. However, it is a fluid, spontaneous work, and it progressively takes its shape.

 

As we’ve mentioned you are not only a fine artist but also a curator and writer. Do you see these roles as equally influential in your artistic practice or are you able to separate these roles while creating?

 

Yes, they are separate. I think it brings us back to the question of authorship. I remember that in 2013, I wrote about this exhibition called Hora de Ponta but I didn’t assume the curator role in my writing. In this exhibition two people had similar ideas so they ended up working together and creating only one project. It was very interesting to discuss these issues of authorship in a collaborative work.

Now, answering the question of the roles of curator, artist and writer, of course they are separate roles for me and I do need to situate myself in each project, especially because my job often has to give context at an Art History level. So everything has to flow and be connected but it also needs to have separate moments. I always look at each of my roles as a unique thing that I sometimes try to move around without any of them getting into conflict with another.

 

You’ve been talking a lot about fluidity and how working takes time with other people. That’s interesting because nowadays we have such strict schedules and deadlines and everything is so detailed and structured. What is your take on this subject of time, organisation and fluidity? 

 

Yes, the issue of time. The issue is that the logic of the division of labor is already well defined within the fine arts, along with the logic of specialisation. I always resisted the issue of specialisation. I think one of the things from my perspective is to always find ways to overcome difficulties and not specialise. However, I can also sometimes see something in a curatorial perspective but then I can perhaps carry this perspective to materialize into a physical or immaterial object. Depending on what an idea provides I could do sculpture, painting,  theatre or  film, contingent on the form of an idea. I think the idea finds a space,  a transaction, that allows me to feel comfortable and satisfied with the outcome. 

For example, I remember in 2006 we produced a collaborative book coordinated by Catherine Smith called One million photos, sixty three days. In this project, people from practically all corners of the world just naturally gravitated towards which other, it wasn’t a premeditated selection. I really like this fluidity of projects taking shape.

 

Staying in our comfort zone is easy but we lose a lot and these conversations are important. We are not looking for solutions, just exchanging ideas.

 

Find Rafael Mouzinho:

https://processossite.wordpress.com/artistas-2/rafael-mouzinho/

https://www.buala.org/pt/autor/rafael-mouzinho

https://www.linkedin.com/in/rafael-mouzinho-9204a35b/?originalSubdomain=mz

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